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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Agosto, amargo agosto.


O Sol se põe ao fundo, as cores quentes incendeiam o céu e me fazem sorrir. Estou, eu mesma, contráriando minhas frases sarcásticas sobre finais de filmes clichês. Finais felizes com o grande Sol ao fundo, dando a impressão de felicidade além das fronteiras.
Minhas mãos geladas procuram por abrigo entre os vários casacos elegantes que sobrepujam meu corpo, imprimindo-me uma pseudo-grandeza. A ponta dos dedos continuam quentes pelo cigarro recém apagado e meus curtos cabelos são castigados pelos ventos de agosto.
Aliás, é agosto.
Segundo minha bisavó, depois de agosto você pode se considerar vivo pelo resto do ano. Deus lhe ouça, nona, que Ele lhe ouça e faça verdadeiras essas suas palavras trêmulas de quem sabe viver a alegria dos últimos tempos. Quero me fazer forte como você, segurar todos os agostos possíveis mesmo sozinha, sem o homem da minha vida.
Tenho estado febril, doente por dentro. Engana-se quem pensa que preciso de médicos, remédios e essas parafernalhas que me fazem tremer. Não, não preciso de nada disso. Talvez eu só precise de um bom par de olhos para me cuidar, de um bom coração para acelerar por mim e de alguns sorrisos sinceros. Ah, sorrisos sinceros! A quanto tempo não presencio um? A quanto tempo meus lábios não se abrem em um sorriso verdadeiro? A única coisa que vejo ultimamente são reflexos. Reflexos de sorrisos, reflexos de pseudo-amores, reflexos de um verdadeiro Sol que nunca chega.
Agora o Sol está indo se deitar e a lua, pequeninha, envergonhada em minhas costas começa a brilhar. Um calafrio me faz tremer, minhas pernas começam a formigar. Meu corpo quer o conforto de casa e não a aspereza do asfalto gelado.
Oh corpo, será que tu não sabes apreciar a presença da noite? Não consegue ver a beleza que há nas poucas estrelas desse céu anil escurecido?
Em questão de poucos segundos sinto grossas lágrimas molhando meu cachecol, fico irritada comigo mesma. Quando foi que fiquei tão prevísivel? Lágrimas, sois, estrelas e luares. Onde está a velha garota que ri de tudo isso?
Lembro-me então de quando andávamos por essa rua, de quando nos sentávamos na calçada oposta de onde estou sentada e de como você me contava como seria meu futuro, de como gargalhava de minhas perguntas irônicas e de como você adorava enrolar meus longos fios de cabelos em seus dedos.
Cortei-os.
Posso não admitir, mas os cortei por suas causa. Cabelos curtos não enlaçam minhas costas e me dão a sensação de segurança, mas quem se importa? Eles eram mais seus do que meus. Todos os tons que tantas vezes foram tema de suas poesias melancólicas agora estão sem vida perto do vermelho-fogo que cobre suas pontas. Os amo assim, meus fios refletindo o que sinto.
Em um gesto automático, que teima em se repetir toda vez em que vejo a lua, tento cobri-la com o dedão, como naquela filme em que assistimos, olho para meu dedo e mais lágrimas caiem.
As unhas que um dia foram brancas e delicadas, hoje são tão vermelhas quanto as pontas dos cabelos, tão perigosas quanto meu humor. As mulheres dizem que elas são poder, que sou mulher hoje em dia.
Mulher incompleta que assiste ao pôr-do-sol com lágrimas borrando sua maquilagem. Maquilagem essa que consegue quase que diariamente ocultar as dores e amores de alguém que só quer atravessar esse longo agosto feliz.

(foto via: -)

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