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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ato de coragem, com garras e júbilo.


 Dominavam o cheiro de cigarro, a música lenta e as luzes azuis. Os três impregnavam em mim de uma maneira estranhamente normal, como se cigarros, música lenta e luzes azuis de fato fizessem parte de meu tórrido dia-a-dia. Talvez realmente o fizessem nessas últimas semanas. Não é por mal toda via que Rosália tem resmungado baixinho acerca de meus odores e olheiras. Como é mesmo que ela diz? "Tudo por um rabo de saia." sorrio para minha indulgente governanta e lhe explico calmamente que meu rabo de saia não usa saias. "Vestidos apertados e vulgares, então? Bem pior, menino! Olha você..." abano a cabeça em falsa concordância.

 Cheiro de cigarro, música lenta e luzes azuis são o pacote que acompanham a mulata de cabelos caramelos que acompanho há semanas. Sua voz adocicada e o andar pulsante completam o pacote que sempre procurei.

 -Em que posso lhe servir? - Sorria o garçom que me acompanhava nesse caso impróprio.

 -Você sabe, meu caro. - Lhe devolvia o sorriso e então voltava a observar minha mulata.

 Seus olhos permaneciam fechados enquanto entoava um jazz calmo e suave. Os dedos treinados faziam sua dança encantadora em torno das teclas do piano. 
Há algumas semanas procurei um lugar calmo e pouco conhecido para esquecer meus problemas e tomar algumas garrafas de cerveja em paz, no entanto o que achei foi mais um problema: a mulata de cabelos e olhos caramelos. Não a culpo, ela nem ao menos deve ser consciente de quão bela e singular fica sob luzes azuis que fariam qualquer outra pessoa parecer um alienígena. Lembro-me perfeitamente de como seu sorriso de pálpebras fechadas fora o suficiente para me fazer entrar no bar e ali permanecer por quatro castas horas.

 Acho que a maior verdade de todas é que fui enfeitiçado enquanto seus graves acordes contavam a “História de Lily Braun”.

 Hoje enquanto saía do trabalho e (inconscientemente) me dirigia para cá decidi que seria diferente. Precisava de um nome para minha mulata, precisava de um número para contatá-la e ainda mais do que isso, precisava aproximar-me dela e descobrir quais segredos imprimem esta mulher.

 Tão repentina decisão evaporou-se quando a vi, toda coragem que habitava e corria por minhas veias sumiu assim que meus olhos fitaram os seus. Toda minha coragem, todos os meus problemas e toda minha noção. Era encantador como um meio sorriso estampava-lhe o rosto, como se estivesse aliviada com a minha presença, como se de fato me esperasse para começar seu show.
Meu cúmplice, o garçom, recebeu-me com um largo sorriso de boas vindas e me encaminhou para uma mesa especial, segundo ele:

 - Oh sim, será totalmente de seu agrado. – Garantiu-me com um sorriso. – O moço se surpreenderá.  

 Sobre a mesa repousava um papel de bloco de notas, meio amassado e encardido. A letra é bonita, a mensagem é clara: ela sabe de minha existência. Vibra meu coração, acelera minha respiração.  A coragem me retorna.

 - Com licença? – Lhe chamo a atenção.

 - Sim? – Seu sorriso é três vezes mais encantador, será possível?

 - Você deixou um bilhete sobre minha mesa... – Solto um pigarro. – Não estou certo sobre ser o destinatário certo.

- Você veio pelo erro em coragem ou por ter sido descoberto? – Continuou sorrindo.

 Capturei o bilhete –muito bem guardado em meu bolso – e reli outra vez. Corajem. Havia realmente um erro e este acometia a palavra mais importante do bilhete: coragem. Onde estava minha coragem, seja ela com garra ou júbilo? Averiguei mais uma vez, apenas por precaução.

 - O erro na coragem do teu bilhete jamais chegará perto do erro que cometi com a não coragem em aproximar-me.

 - Sorte que o fez – suspirou – aproximou-se.

 - Sorte que o fiz, bela C.

 - Clarice.









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