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domingo, 19 de abril de 2015

99 dias com ela



Hoje fazem exatos noventa e nove dias que moro sozinha. Pensei em dizer: “que sou oficialmente adulta”, porém a quantidade de objetos “fofos” que decoram minha mini casa me trairiam. Moro sozinha, em um bairro estranho, rodeada de pessoas estranhas e com todas as contas saindo em meu próprio nome e nem assim me sinto oficialmente adulta. Sigo me sentindo apenas eu, tenho um tipo de aversão a essa palavra, adulta. É pesada e sempre me faz pensar naqueles seres humanos que só trabalham e nunca tem tempo para pensar ou se divertir.

Durante um ano inteiro planejei e sonhei com todas as possibilidades de viver em minha própria companhia. Entrei em tantas lojas de móveis tantas vezes, que hoje se vejo uma, atravesso a rua no mesmo instante. Orcei as mais variadas coisas, queria economizar cada centavo e fazer com que tudo fosse perfeito. Meu objetivo era simples: morar sozinha.

Meu lado planejador se aflorou se tal maneira, que comecei a perceber que não era tão simples assim. Morar sozinha, ponto. Mas e a pia, o fogão e a geladeira? Eles vem de brinde? Foi quando comecei a fazer um milhão de planilhas, não no Excel, é claro. Planejei cada detalhe para que tivesse o menor risco possível de dar errado.

Levei comigo durante todos os dias aquele velho dito popular: “No final, tudo dá certo.” E então quando tudo começou a dar errado, trovejei e bati o pé até entender que sim, no final tudo dá certo, mas é no meio que as coisas acontecem. É durante que você sente uma imensa vontade de desistir, é nesse ínterim que você quer morrer com os absurdos encontrados no mercado, é nesse período, quando cada mínimo detalhe planejado começa a dar errado que você entende qual é a graça da vida.

Adianta viver se você souber que tudo sempre vai dar certo? Se der certo no final, é felicidade plena, mas se durante aparecer um obstáculo e outro, tudo bem. Aprendi muito nesse tempo, e ainda estou aprendendo a controlar a ansiedade e decepção, por exemplo. Minha vida não é uma planilha para que tudo ocorra no tempo em que planejei. Se deu certo, ótimo, vamos continuar. Se não deu, choraminga um pouquinho e depois volta com força dobrada, agora precisa dar.


Uma vez li um texto, não lembro o autor infelizmente, que dizia que quando aconselhamos alguém, estamos na verdade nos aconselhando. Acredito que esse texto seja um conselho para mim mesma, uma pessoa que sonha por vezes demais e planeja momentos que não necessitam de planejamento. Morar sozinha tem sido a maior e melhor experiência da minha vida, perceber que centenas de coisas dependem de mim para acontecer e que, na maioria das vezes, não saem como planejei, tem me ensinado a ficar mais calma quando tudo parece errado, quando o bolo desanda ou o suco fica aguado, calma. A vida é para ser vivida aos poucos, um passo a cada dia, um suspiro a cada encanto. 
13.04.2015

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